O Estado Actual das Florestas na Serra do Açor

As consequências da monocultura

A Serra do Açor é uma pequena montanha no Centro de Portugal. Irmã mais pequena da maior e mais conhecida, Serra da Estrela, tem a sua própria beleza selvagem; largas e curvas vertentes, afloramentos rochosos, vales escondidos com rios e vilas remotas.

Em tempos, arborizada com uma mistura de espécies folhasas, como o castanheiro (Castanea sativa) e carvalhos (Quercus spp.), a floresta hoje é composta, sobretudo, por uma monocultura de pinheiros e eucaliptos. O pinho é, sobretudo, pinho marítimo (Pinus brava) que é natural do litoral de Portugal. O eucalipto ou goma azul (Eucalyptus globulus) é, claro, natural da Austrália. O pinho marítimo foi cultivado no Centro de Portugal como monocultura durante várias décadas e o eucalipto desde os anos setenta. Agora, o eucalipto exótico é a árvore mais abundante em Portugal, cobrindo cerca de 7% do solo.

As monoculturas providenciam o ambiente perfeito para as pragas surgirem (as monoculturas produzem plantas pouco saudáveis e providenciam uma fonte de comida para as pragas), por isso não é surpresa que os pinheiros estejam agora a sofrer de uma infestação de uma praga letal chamada “madeira de pinho nematóide” – PWN (Bursaphelenchus xylophilus). O nematóide passa de árvore para árvore, através de besouros (Monochamus spp), podendo matar a árvore numa questão de semanas, deixando a árvore unlable. Como resultado, grandes áreas estão a ser cortadas, ao primeiro sinal de que as árvores estão a morrer..

Esta é a promoção da plantação do eucalipto que é mais devastador de um ponto de vista ecológico que o pinheiro. Os eucaliptos são alopáticos, eles libertam quimicos para impedir que outras plantas cresçam debaixo deles, por isso existe pouca diversidade de plantas e animais em monoculturas de eucalipto, é, praticamente, um deserto de uma só espécie. Eles são não-nativos, portanto, de valor reduzido para a vida nativa selvagem. São árvores bem-adaptadas a um clima de deserto, têm uma extensa rede de raízes rasteiras (90% no topo 30 cm no solo) e uma longa e funda raiz, de forma a absorverem a água da chuva e águas paradas e puxarem as águas fosséis dos lençóis freáticos. À velocidade que crescem, torna-se desastroso para o ciclo de água local e, assim, para o clima na região.

Para além das consequências ecológicas e meteorológicas destas monoculturas, existe outra consequência devastadora. Quer o pinho, quer o eucalipto são ambos extremamente inflamáveis, por isso, todos os anos Portugal, literalmente, arde. Durante os Verões quentes e secos, bombeiros voluntários perdem as suas vidas, lutando contra estes incêndios, protegendo as pessoas e os seus bens e todos nós na região vivemos com uma tensão permanente perante a possibilidade de um incêndio que leve a nossa terra e as nossas casas.

Então por que razão isto continua?

As árvores são criadas pela polpa, existindo hoje uma grande indústria de polpa controlada pelas corporações. Um pequeno grupo de pessoas beneficiam generosamente disto e têm um peso politico muito significativo. Há um interesse investido daqueles que estão no poder para manterem a indústria da polpa em funcionamento, apesar das consequências devastadora desta monocultura. O país está em crise económica, por isso é improvável que o Governo faça alguma coisa que possa “aborrecer” os que estão a produzir riqueza, existindo, inclusivamente, incentivos para a plantação de eucaliptos, em vez de se investigarem alternativas, aumentando, assim, a quantidade de terreno onde se faz aquela monocultura. É um ciclo vicioso de desemprego rural, pobreza e falta de oportunidades, o que significa que as pessoas deixaram o campo em busca de trabalho e oportunidades nas cidades, por isso poucas pessoas ficaram a dedicar-se à terra. Fazer crescer árvores para a indústria da polpa não exige muita força de trabalho e parece um bom uso dos terrenos abandonados, com excepção de todas as razões destacadas em cima.    

Um novo potencial

Vemos um potencial muito maior para esta terra e para os que aqui habitam do que esta monocultura – variada, folhasas silvicultura sustentável. A floresta folhasa já cobriu toda esta terra. As florestas folhasas não ardem, a não ser em circunstâncias excepcionais e, mesmo nessas, em áreas localizadas. Providenciam habitat para o potencial variado de plantas e vida selvagem que este país tão rico contém. O ciclo da água e o clima podem ser mudados e renovados e podemos ter Verões mais frescos e húmidos, simplesmente trazendo as árvores nativas que retêm e armazenam a água.   

Partes de Portugal tornaram-se semi-desertas e este não é um fenómeno natural mas uma consequência da perda de floresta folhasa. E, muito importante, uma silvicultura sustentável tem o potencial de criar emprego e rendimento para muitas das pessoas que vivem localmente, mantendo os rendimentos locais em vez de os ganhos serem desviados para as poucas empresas sediadas em Lisboa e no estrangeiro. A terra pode, novamente, dar o sustento às pessoas, em novas e diferentes formas do que no passado. Não estamos a defender um regresso à vida de antigamente mas, sim, entendemos que podemos beneficiar do melhor do passado e das tecnologias actuais, rumando a um futuro mais justo, mais razoável e a uma afirmação de vida.

 

Eventos

Concerto, Conversa e Discussão - 1 e 2 de Agosto - Coja e Benfeita

Temos a honra de receber Tiokasin Ghosthorse, que viaja desde a sua reserva em Dakota do Sul até Portugal, para partilhar connosco oração, música e sabedoria intemporais.

Benfeita, 1º de Maio de 2017
Hoe houd ik van mijn lichaam en vind ik vrijheid in obsessies met eten. Donderdag 18 – zondag 21 mei 2017 Buinen, Netherlands

Heb jij een negatief beeld van jouw lichaam?

Quinta da Floresta, Benfeita 21 Outubro das 10h às 17h

Devido à grande procura, venho com grande satisfação anunciar uma nova oportunidade esta Primavera de iniciar a aprendizagem da arte e ciência do reconhecimento de plantas, no nosso bonito vale na Serra do Açor.

Quinta da Floresta, Benfeita 2018

Desde há milénios que as pessoas se retiram para locais selvagens para encontrar a paz interior e uma maior perspectiva da Vida. A Natureza, com a sua simplicidade e beleza, sustenta um profundo relaxamento do corpo, mente e alma.

ÚLTIMAS ENTRADAS NO BLOGUE

Sou apaixonado por construir com madeira em toros (troncos?). Conheço poucas coisas que façam sentido de tantas maneiras, quase todas de sentido prático e ecológico – o que no fundo é o mesmo – mas também financeiramente, esteticamente e em termos de resiliência e gestão da floresta.   

Ouvi dizer que, quando se está a criar, está-se mais próximo do Criador e, na minha experiência, isso é verdade.

Depois de um longo, quente e seco Verão, finalmente alguma, benvinda, chuva veio em Setembro. Estivémos fora durante as primeiras chuvas mas houve mais e depois de alguns dias de sol, fomos até uma floresta de bétulas e castanheiros mais adiante na montanha.